30 dezembro 2014

Você sabia que intolerância religiosa é crime?

Com o ano de 2014 dando seus últimos suspiros (Obrigado por esse ano grande Oyá), fiz uma pequena retrospectiva e durante ela percebi o quanto se falou em 2014 sobre intolerância religiosa. Grupos de diversas religiões se reuniram para discutir formas de minimizar e talvez extinguir os atos de intolerância cometidos Brasil a fora.
Lembrei-me de um conselho que minha mãe me deu quando eu tinha cerca de 10 anos de idade: 

"Filho, se perguntarem sua religião na escola, é só falar que você é católico, afinal você foi batizado em uma igreja católica". 

O que dizer desse conselho? Sábio e medroso ao mesmo tempo. Nessa época estávamos deixando a década de 80 para trás, o Brasil havia deixado de ser um país politicamente católico há menos de 10 anos e o protestantismo, visto as liberações políticas, estava em franco crescimento. Então, o melhor era não cutucar onça com vara curta. Por fim, mesmo sendo ainda uma criança, consegui ter o discernimento necessário para simplesmente não discutir religião com os meus colegas de escola, buscava me afastar sempre quando esse assunto entrava em pauta.

Tal conselho que recebi de minha querida mãe, fui buscar depois de um fato ocorrido em minha escola. Eu era muito amigo de um rapaz e ele por sua vez era de uma religião protestante, dessas mais tradicionais. Um dia ele veio até mim com uma revista de sua religião e começou a pregar a palavra de Deus, eu muito tranquilamente ouvia e inclusive comentava alguns aspectos do texto que ele lia, nada me parecia errado, por mais que eu não tivesse uma consciência plena naquela época, aquele texto pregava o amor ao próximo, logo não haveria como eu sentir uma energia negativa naquelas palavras. Então encorajei-me e perguntei a esse amigo o que ele achava do espiritismo, visto que essa foi a religião de minha mãe e por consequência a minha, até que eu pudesse fazer minhas próprias escolhas, ou melhor, até que eu ouvisse o chamado da Umbanda. Sua resposta foi simples e direta:

- Essa é a religião do demônio. Não gosto nem de tocar nesse assunto.

Imagine só uma criança de 10 anos falando isso a respeito da religião alheia! De forma alguma ele sabia o que estava falando, apenas já tinha plantada dentro de seu coração a semente da intolerância. Eu, por minha vez, fui safo e respondi a ele apenas o seguinte:

- Ah, já ouvi falar isso que você me disse. Melhor nem falar mais a respeito né?

Por dentro, meu peito estava apertado e meu estômago queimava, mas eu já conhecia aquela sensação. Eu experimentava mais uma vez em minha vida o amargo sabor do preconceito, da discriminação, da opressão. Sim, mais uma vez, pois desde jovem eu sentia o peso opressor da falta de educação das pessoas, que julgavam a mim e a minha família ora por sermos pobres, ora por sermos espíritas, e as vezes eu tinha a impressão de que o faziam só por não terem nada de melhor para fazer de suas vidas.

Toda essa recordação que tive serviu-me apenas para lembrar que, infelizmente, ainda hoje, 24 anos depois do ocorrido que relatei, não houve nenhuma mudança eficaz. Ainda hoje existem pais educando seus filhos para serem adultos intolerantes, ainda hoje ouço termos como "mãe de encosto" e "pai de encosto". Em pleno Sec XXI tenho que assistir, pasmo, uma matéria na televisão dizendo que um indivíduo queria tirar o título de religião da Umbanda e do Candomblé, por um motivo tão tosco que não vale a pena nem ser comentado aqui. 

E hora de reagir meu povo querido, pois se ainda existem pais e mães criando seus filhos para chamar a religião dos outros de demoníaca, é hora de termos coragem de educar nossos filhos para assumir que são da Umbanda, do Candomblé, do espiritísmo de Allan Kardec... É hora de respondermos ao Censo a nossa verdadeira religião, hora de nos informar sobre nossos direitos, hora de reagirmos contra a opressão silenciosa que se esgueira pelos corredores da ignorância.

Jamais se esqueçam de que o Brasil é um país laico, que garante a liberdade religiosa como direito fundamental de todo cidadão. Sempre se lembre que qualquer ato de intolerância religiosa e crime, não a pratique e denuncie caso você seja vítima!

Saravá.
João Greco.

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